Às vezes fico assustado ao perceber como o comportamento humano se repete de maneira padronizada desde sempre mesmo com os devidos registros históricos que deveriam servir de lição para nós.
Já há algum tempo venho percebendo determinadas ações do nosso governo (provavelmente acontecem em todos os governos do mundo de uma forma ou de outra) derivadas de táticas antiqüíssimas.
Há alguns meses estava iniciando a leitura de um livro muito interessante que me foi indicado por um grande amigo, Ericson de Abreu, junto com vários outros. Aliás, recomendo este livro para todos. É realmente muito interessante e provoca profundas reflexões. O nome dele é A Utopia. O autor é Thomas More.
Na primeira parte, designada pelo autor como “primeiro livro”, Rafael Hitlodeu (provavelmente um personagem criado que ele descreve no livro com um viajante que já esteve em toda parte e que lhe conta sobre a ilha de Utopia), discursa sobre a melhor forma de governo.
No trecho em que fala sobre conselhos que os ministros poderiam dar ao rei para acumular ainda mais riquezas, inúmeras situações que vemos de maneira idêntica nos dias de hoje são citadas. Preparativos para guerras inventadas ou distorção do valor real da moeda são práticas bastante vistas pelos nossos políticos mundo afora. Uma em específico me fez visualizar situações do meu cotidiano ao dirigir o carro.
A criação de novas leis e penalidades pelo não cumprimento delas.
Antes que pensem que eu não aprovo a importância das leis e do controle em nossa sociedade, permitam que termine o raciocínio.
O problema não são as leis e sim a verdadeira intenção da criação. Quando a intenção é o bem comum, a lei para mim é perfeita e necessária. Quando a intenção é favorecer o próprio criador da lei ou grupos específicos que o financiam e com isto prejudicar o povo, aí está o problema.
Já repararam na quantidade de radares, pardais e guardas municipais “fiscalizando” de forma impiedosa o nosso trânsito?
Neste caso específico, estou falando de leis criadas com a clara intenção de aumentar a arrecadação de receito do governo.
Exemplo: Pardais em lugares onde naturalmente pela característica da rua, a velocidade do carro é bem superior ao exigido pelo controle (há pouco tempo era ainda pior quando não era necessário ter aviso e os pardais ficavam literalmente escondidos); guardas municipais que parecem ter meta diária de quantidade de multa e então se escondem para multarem desavisados e procuram os motivos mais esdrúxulos para multar sem o mínimo bom senso, ou melhor, com clara má intenção; cobrança de valor para que você possa estacionar seu carro na rua sobre pena de multa e reboque...
Todas estas maneiras de arrecadar mais dinheiro são sensacionais.
Elas exploram o povo e o mesmo ainda se sente protegido e servido pelo governo.
Tanto no caso da guerra quanto no da deturpação do valor da moeda e da criação de leis e multas interesseiras e deturpadas há a máscara da justiça. A sensação de que o governo está fazendo isto para o nosso próprio bem.
No caso das multas a máscara vai até além. Alguns podem até se sentir aliviados da culpa da “transgressão” ao pagar a multa. Mesmo que em primeiro lugar você não esteja errado e até inconscientemente saiba disso, quem é você para discordar das autoridades? Ou seja, você está realemnte errado e se sentirá muito melhor ao quitar suas “obrigações” com o governo e a sociedade. Muitos pensam assim com certeza sem o senso crítico necessário.
Volta a ressaltar. Não sou contra governo, leis, multas... Acho tudo muitíssimo necessário. O que reclamo é da intenção da maioria dos governos, leis e multas. Estes desde sempre são criados para beneficiar os próprios governantes muitas vezes sobre a máscara da justiça e do bem comum que deveriam sim ser o objetivo em primeiro lugar.
Bom, as táticas de deturpação do verdadeiro papel de um governo para utilização do poder em benefício único dos próprios governantes são tão antigas que já víamos esta consciência descrita e divulgada (obviamente de maneira bem mais restrita na época) em 1516 (data da primeira edição de A Utopia) e com certeza já era abordada nas argumentações filosóficas na Grécia antiga.
Ainda assim, por mais que este texto pareça pessimista com relação ao avanço da humanidade, defendo que estamos sempre em constante evolução, mesmo que ela pareça lenta aos nossos olhos. Um excelente exemplo disto é estar aqui hoje falando abertamente sobre este assunto, gerando (espero eu) reflexões e novos pensamentos até mesmo contrários à minha opinião que serão expostos nos comentários, mostrando outras perspectivas e somando para o amadurecimento do tema, sem ser queimado em praça pública por isso. Sem sermos, todos nós, na verdade.
Não é um excelente avanço, a liberdade de expressão e de pensamento?
Vamos valorizar esta dádiva que é direito de todos por natureza e que muitos em muitas épocas foram privados de desfrutar.
Aguardo comentários! J
Abraços a todos!
26-08-2022
Há 2 anos